Vamos beber água reciclada no futuro?

Com o aumento de episódios de seca e a intensificação do stress hídrico nas mais diversas geografias, a reutilização das águas residuais tratadas surge como uma das soluções que se antevê para o futuro. Das indústrias à agricultura e incluindo a água da torneira, a reciclagem deste recurso tão precioso está em crescendo.

 

Para muitas pessoas, a ideia de beber água que foi reciclada a partir das águas residuais que já circularam nos nossos autoclismos, chuveiros ou máquinas de lavar, entre outros, não é muito apelativa.

E ainda assim, em certas partes do mundo, onde o stress hídrico é severo e afeta profundamente as populações, água com qualidade para consumo é já hoje produzida a partir de águas residuais filtradas e tratadas. Já hoje e, em alguns casos, como na Namibia, há mais de 50 anos, mas também na Austrália, Califórnia, Texas, Singapura... E amanhã na Europa? Em Portugal?

Não há nada de extravagante no conceito quando basta recuarmos a 2017 e nos lembrarmos de quando Portugal foi fustigado por incêndios e uma seca que chegou a colocar sobre a mesa a hipótese do racionamento (um dos casos mais dramáticos Viseu).

Com o rápido crescimento da população mundial, da urbanização e das alterações climáticas, a falta do recurso, já chamado de "ouro azul", tornou-se um desafio em todo o mundo. Mais ainda durante a pandemia, durante a qual o acesso a água, e a água de qualidade, se mostrou vital para garantir condições de higiene fundamentais para prevenir o contágio, mas nem sempre disponível para as populações mais vulneráveis.

Uma solução com muito para explorar

Na Europa têm, ainda assim, surgido nos últimos anos diversos projetos experimentais relacionados com a reciclagem de águas residuais, nomeadamente para rega de espaços verdes e limpezas urbanas. Mas este movimento tem sido tímido. Em Portugal continental, em 2019, apenas 32 entidades gestoras, das quais 22 em baixa e 10 em alta, produziram águas residuais tratadas para reutilização, correspondendo a 8,4 milhões de metros cúbicos, ou seja, a cerca de 1,2 % da água residual tratada em estações de tratamento.  Acresce que a maior parte dessa água residual tratada foi utilizada pelas entidades gestoras para uso próprio e que apenas 16% foi fornecida a outras entidades para serem reutilizadas.

Reutilizar as águas residuais tratadas deve ser uma solução complementar à otimização de consumos e à redução de desperdícios. Porquê tirar água do seu ambiente natural para regar um campo agrícola ou arrefecer uma instalação industrial quando nas proximidades existam volumes de águas residuais tratadas capazes de suprir essa necessidade que possam ser recicladas para o efeito?

No caso da agricultura, que representa 70% do consumo de água doce no planeta, de acordo com a OCDE, a presença nas águas residuais de certos elementos, como o fósforo e o nitrogénio, que são usados nos fertilizantes, é até bem-vindo. O projeto da Veolia SmartFertiReuse asssenta precisamente na experimentação da irrigação de campos agrícolas com águas residuais tratadas ricas em nutrientes. O sistema de gestão inteligente associado permite a produção de água de qualidade controlada que responde às necessidades nutricionais das plantas.


 

Uma coisa é certa: a tecnologia está pronta. 

“Hoje, somos capazes de produzir água para consumo de qualidade a partir de águas residuais e temos todas as ferramentas para monitorizar essa qualidade. Podemos até fazer água ‘ultrapura’ para a indústria microeletrónica ou farmacêutica, com recursos apenas a moléculas H2O”, afirma Arnaud Valleteau de Moulliac, Diretor da OTV, empresa do Grupo Veolia especialista na conceção e integração de tecnologias de tratamento de água.

O Grupo Veolia tem desenvolvido centenas de tecnologias das quais é proprietário, quer de filtração, quer de eliminação de micropoluentes incluindo microplásticos nas águas residuais, graças a uma técnica de separação por membranas, que atua como um filtro que retém partículas muito finas e poluentes.

“Os desafios relacionados com a reutilização da água já não são tecnológicos, mas sobretudo de âmbito regulatório e também de aceitação social ”, acrescenta.

No entanto, as preocupações com a disponibilidade de água para consumo podem mudar mentalidades. De acordo com um survey Elabe promovido pelo jornal Tribune em 2020, a maioria dos residentes em França (83%) sentem-se preparados para beber água produzida a partir de águas residuais.

A utilização das águas residuais tratadas tem também grande potencial ao nível do reforço das reservas de águas subterrânea (que indiretamente abastece a água para consumo). Datado de 2016, o relatório da Anses mostra-se a favor desta opção, desde que feita uma monitorização apertada da qualidade da água utilizada, de forma a controlar riscos sanitários. Na Europa, a Bélgica e a Itália têm já projetos nesta área, de forma a estudar os seus impactos no longo prazo.

Já em 2020, o Parlamento Europeu manifestou-se a favor de um incremento da reutilização das águas residuais, em paralelo com a definição de requisitos que assegurem a qualidade dessa água. “Potencialmente em 2025 poderemos estar a reutilizar 6,6 mil milhões de m3 de águas residuais tratadas, por oposição aos 1,1 mil milhões de hoje” referiu na ocasião pela eurodeputada Simona Bonafè.

 

Em parceria com Usbek & Rica, parceiro de media que perspetiva o futuro.