Conversas com Propósito - Ética e Compliance

À conversa com António Teixeira Duarte, Diretor Jurídico e de Compliance
António Teixeira Duarte, Diretor Jurídico e de Compliance

A Veolia foi uma das primeiras, senão a primeira mesmo, empresas em Portugal a certificar um Sistema de Gestão Anticorrupção, porquê essa prioridade?

A nossa certificação vem já de 2020 mas na realidade não nos preocupámos muito em ser os primeiros. Percebemos que de certa forma estávamos a ser pioneiros em Portugal quando nos nos confrontámos com a falta de entidades certificadoras e auditores em Portugal que já tivessem experiência na certificação da Norma ISO 37001.

Esta certificação acabou por ser uma consequência de todo o trabalho que foi desenvolvido nos anos anteriores em que implementámos um Programa de Compliance de raiz. Uma vez que fazemos parte de uma multinacional francesa, procurámos que este Programa de Compliance fosse também ao encontro das exigências da lei francesa de combate à corrupção, a lei Sapin II.

A verdade é que quando implementámos o nosso Programa Compliance constatámos que estávamos muito próximos dos requisitos da Norma ISO 37001 (Sistema Anticorrupção). Efectivamente, já tínhamos construído uma organização própria com normas e procedimentos, já dispunhamos de uma cartografia do risco de corrupção, já tínhamos implementado o tone of the top, desenvolvido um plano de formação específico, estabelecido regras para ofertas, convites e patrocínios e disponibilizado um sistema de whistleblowing através de uma plataforma independente.

Por isso, a certificação ISO 37001 foi um passo natural, que nos obriga a avaliar e melhorar continuamente os nossos processos e procedimentos. A certificação para nós está longe de ser um fim - é um meio e uma ferramenta adicional que nos permite assegurar que o sistema anticorrupção está bem implementado, é eficiente e escrutinável. E isso obriga-nos a melhorias constantes, a documentar os nossos procedimentos e a demonstrar que os respeitamos. Ou seja, temos que estar constantemente preparados para demonstrar que “escrevemos o que fazemos” e que “fazemos o que escrevemos”.

De acordo com o RKC*, 67,5% dos líderes portugueses têm uma perceção generalizada de que a corrupção é um fenómeno habitual nas empresas que operam no país. Também há esta perceção de Portugal no Grupo Veolia?

[*RKC= Reputation Knowledge Centre]

 

Na Veolia também analisamos o risco de corrupção por país e, tendo em conta que a Veolia opera em 48 países, devemos ter presente que Portugal está bem longe dos países com maior índice de corrupção.

Em todo o caso, este número não pode deixar de nos preocupar porque, se existe essa percepção, é porque de alguma forma estes líderes foram de algum modo confrontados com estas situações.

A nossa preocupação foi identificar as pessoas e as áreas mais expostas ao risco. No final, cabe à própria empresa mitigar este risco e proteger os seus colaboradores deste tipo de situações.

É por isso que revemos anualmente a nossa cartografia de risco de corrupção e todos os colaboradores que consideramos que estão mais mais expostos fazem pelo menos uma formação de Compliance todos os anos - não procuramos apenas proteger a empresa, o objectivo em primeira linha é proteger os colaboradores de situações limite em que se possam ver envolvidos.

Não descuramos este tema porque temos bem a noção de que há zonas cinzentas e momentos em que agir correctamente pode não ser assim tão fácil. Um colaborador tem de estar bem seguro e protegido quando tiver que dizer «Não» a um novo cliente, quando recusar uma proposta mais favorável de um fornecedor ou  quando tiver que afastar-se de um parceiro com o qual estava a contar. São decisões que podem ser difíceis, muito duras mesmo, mas que são essenciais para que o nosso sistema funcione e cumpra a sua função de proteger os interesses, a imagem e os colaboradores da Veolia.

Hoje em dia posso dizer com bastante segurança que os nossos Valores e a Ética são aplicados na Veolia e isso significa que não estão a ser tomadas as decisões mais fáceis mas sim as certas.  

Para a Veolia as questões da Ética e Compliance são inegociáveis. Que vertentes internas e externas são abrangidas por essa política de ética e compliance?

Sim, na Veolia temos 3 temas que são absolutamente inegociáveis - a Segurança, a Ética e o Compliance. O respeito pela Ética e pelo Compliance, ou seja, pela conformidade, insere-se no nosso Propósito e no nosso compromisso de apoiar o desenvolvimento responsável dos nossos negócios. Isto integra-se no nosso desempenho social, que visa satisfazer os interesses de um dos nossos 5 stakeholders - a Sociedade (os restantes são o Planeta, os Clientes, os Colaboradores e os Accionistas). 

Encaramos assim o Compliance tanto nas suas vertentes internas e externas. E não temos dúvidas que estamos a trilhar este caminho em conjunto com muitas outras empresas, incluindo alguns dos nossos clientes e nossos parceiros.

Hoje em dia não assinamos qualquer contrato sem realizar uma avaliação séria do nosso cliente ou fornecedor na perspectiva do Compliance. Outras vezes somos nós que somos avaliados enquanto fornecedor ou cliente e não temos qualquer problema com isso, bem pelo contrário. É certo que somos bastante exigentes nesta matéria e até podemos perder algumas oportunidades, como já aconteceu… mas esta postura habilita-nos a ganhar muitas outras (como também já aconteceu!)

A Veolia tem dito que ser uma empresa Ética e com preocupações Compliance é uma vantagem competitiva. Em concreto, como se verifica essa vantagem?

O respeito pela Ética e pelo Compliance é uma enorme vantagem competitiva. Estamos convictos que a reputação da Veolia é um dos seus principais activos, não haja qualquer dúvida quanto a isso. É um activo que, para nós, não é menos importante que a nossa capacidade operacional ou o nosso desempenho comercial e financeiro.

Sabemos que o Compliance confere segurança à Veolia e, consequentemente, torna-a mais atractiva, tanto para os nossos colegas como para terceiros. Ninguém quer trabalhar numa empresa em que não confie, ou que possa estar envolvida em situações menos claras. Da mesma forma, não é possível assinar um contrato, obter um financiamento ou estabelecer uma parceria se não houver confiança.

Este reconhecimento já se começa a sentir no mercado. Já tivemos relatos disso mesmo, de Clientes que escolheram trabalhar com a Veolia pela confiança que conferimos. É por isso que encaramos o Compliance enquanto gerador de valor para empresa, que torna a empresa mais atractiva e, com isso, conseguimos atrair mais talento, melhores clientes, melhores fornecedores e melhores parceiros. Ou seja, mais negócio.