Água: um recurso demasiado precioso para ser usado apenas uma vez

Em 20 anos, um em cinco países vão enfrentar períodos de escassez de água decorrentes das alterações climáticas. Como podemos reduzir a pressão sobre as origens de água doce? Para além da redução dos consumos, existem outras soluções, com destaque para o tratamento e reutilização das águas residuais. 

São muitas as aplicações possíveis para as águas residuais tratadas:  irrigação de espaços verdes e campos agrícolas, combate a incêndios, usos industriais, sistemas de climatização, e até abastecimento para consumo humano.  Ainda assim, na Europa a reutilização é ainda uma solução pouco explorada: 0,6% em França,  8% em Itália, 14% em Espanha... mas 80% em Israel.

Em Portugal continental, em 2018, apenas 30 entidades gestoras, das quais 20 em baixa e 10 em alta, produziram águas residuais tratadas para reutilização, correspondendo a 8,5 milhões de metros cúbicos, ou seja, a cerca de 1,2 % da água residual tratada em estações de tratamento*.  Acresce que a maior parte dessa água residual tratada foi utilizada pelas entidades gestoras para uso próprio e que apenas 12 % foi fornecida a outras entidades para serem reutilizadas.

*Dados RASARP 2019 (volume 1)

> Um tema em transformação

Para fazer face à procura crescente de água, a reutilização constitui uma origem alternativa, contribuindo para o uso sustentável dos recursos hídricos, na medida em que permite a manutenção de água no ambiente e a respetiva preservação para usos futuros, salvaguardando a utilização presente, em linha com os princípios da economia circular. A utilização de água residual tratada é, aliás, um exemplo do que pode constituir uma medida de adaptação às alterações climáticas prevista no Programa de Ação para a Adaptação às Alterações Climáticas (P-3AC) e uma boa prática de gestão da água, designadamente para fazer face ao aumento da frequência e intensidade de períodos de seca e de escassez de água, permitindo assim aumentar a resiliência dos sistemas.
APA - Agência Portuguesa do Ambiente
In Guia para a reutilização de água - usos não potáveis

Reutilização de água

Utilização de águas residuais tratadas ou de águas de drenagem de sistemas de rega para benefício de indivíduos particulares ou da comunidade em geral, sujeita a licenciamento nos termos do DL n.º 119/2019.

Recirculação/Reciclagem

Utilização de água em circuito fechado dentro de um ou mais processos, p.e., a utilização de água residual tratada numa ETAR como água de processo ou para lavagem de equipamentos, não abrangida pelo DL n.º 119/2019. A rega de espaços verdes com água residual tratada, dentro do recinto de uma ETAR, não é considerada recirculação ou reciclagem e está sujeita ao licenciamento nos termos do DL n.º 119/2019.

Legislação relevante 

Decreto-Lei n.º 119/2019, de 21 de agosto que estabelece o regime jurídico de produção de água para reutilização, obtida a partir do tratamento de águas residuais, bem como da sua utilização;

Portaria n.º 266/2019, de 26 de agosto que aprova a informação e a sinalética a utilizar pelos produtores e utilizadores de água para reutilização (ApR);

Guia para a reutilização de água - usos não potáveis

Fechar o ciclo

Exemplos de reutilização de águas residuais urbanas

  • Irrigação de campos agrícolas
  • Rega de espaços verdes
  • Usos urbanos não potáveis (exemplo: lavagens de ruas)
  • Para utilização pela indústria
  • Reforço das origens de água para consumo (não permitido em Portugal)

 

Exemplos de reutilização de águas residuais industriais

  • Arrefecimento de sistemas
  • Limpezas industriais
  • Reintrodução em processos industriais
  • Água de alimentação de caldeiras

Beber água que já foi usada?

Um estudo realizado em junho de 2020 pela Elabe para o jornal francês La Tribune revela que 92% dos inquiridos estão preocupados com a poluição dos oceanos e rios,  87% com a diminuição dos recursos e 84% com o risco de seca. Uma pessoa em cada dois receia o risco de falta de água para consumo.

Apesar do tema da escassez de água estar já hoje bem presente na consciência de todos, a reutilização de águas residuais como potencial resposta tem evoluído de forma muito tímida na maioria dos países europeus, em grande parte devido ao receio da presença de micro poluentes e também a algumas barreiras psicológicas.  

No entanto, o mesmo estudo aponta para 70% dos inquiridos a defender a importância do desenvolvimento de soluções que possam dar resposta à falta de água e 46% não se mostraram surpreendidos com a possibilidade das águas residuais serem transformadas em água potável. 75% responderam que usariam água reciclada para rega de fruta e vegetais e na criação de gado. Numa situação de seca, 87% afirmaram-se mesmo convencidos dos benefícios de produzir água para consumo humano a partir de águas residuais tratadas e que seriam capazes de consumi-la desde que dispusessem de informação sobre a sua qualidade, o sabor fosse igual à água da torneira que hoje conhecem e se fosse mais barata.

São vários os países que já hoje reutilizam águas residuais tratadas para consumo humano

De acordo com os censos de 2017 da Organização Mundial de Saúde e Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, hoje já utilizam águas residuais tratadas para produção de água para consumo países e estados como a Austrália, Califórnia, Texas, Singapura, Namíbia, África do Sul, Kuwait, Bélgica e Reino Unido. Nestes países, a água reutilizada serve para reabastecer as origens de água subterrâneas e superficiais (barragens). No Brasil e na India, estão em avaliação projetos neste âmbito. As recomendações das instituições de saúde e ambiente asseguram a segurança desta prática (OMS 2017, USEPA 2012 e  2017, Water Research Australia 2019), a que acrescem as regulações nacionais de cada um destes países, no que diz respeito à produção de água para consumo a partir de águas residuais tratadas.

 


> As soluções Veolia para a reutilização das águas residuais

É longa - e em permanente renovação - a experiência da Veolia na reutilização das águas residuais para preservar este recurso e os ambientes aquáticos. São mais de 20 de anos de experiência em projetos para a economia circular da água, de simples esquemas de irrigação e processos complexos de reutilização industrial até soluções de potabilização.

Reutilização em contexto industrial

A Veolia apoia a Nestlé, na sua fábrica de produção de leite para bebés em Qindao, na China, a reutilizar a água retirada do processo de desidratação (16.500 toneladas de água por mês), numa região sob stress hídrico crónico. Em Portugal, é sobretudo na indústria que a Veolia tem desenvolvido projetos de reutilização de águas residuais para autoconsumo.

Em junho de 2020 a Water Summit, organizada pelo Center for Responsible Business and Leadership @ CATÓLICA-LISBON, diferentes indústrias e setor público reunidos a debater um desafio comum: contribuir para uma gestão mais sustentável da água em contexto de escassez. A Veolia também esteve presente, através do seu Country Manager, José Melo Bandeira,  mostrando que as soluções (de tratamento, de reutilização, de dessalinização) existem - Só precisamos de tomar decisões e avançar.

Reutilização urbana para usos industriais

A província espanhola de Tarragona, localizada na costa mediterrânica, tem enfrentado períodos recorrentes de falta de água. Desde 2011 que reutiliza a água residual de duas ETAR urbanas (Tarragona e Vila Seca -Salou) para abastecer o Complexo Industrial Petroquímico da região. Este abastecimento permite substituir a captação que era feita no rio Ebro, libertando importantes volumes de água que assim ficam disponíveis para abastecer as populações com água potável. 

 

Reutilização para irrigação agrícola

A ETAR de Nosedo é a principal estação de tratamento de águas residuais urbanas de Milão e a maior infraestrutura da Europa a reutilizar a totalidade do seus efluente final para irrigação agrícola. Este projeto foi feito em parceria com a comunidade de agricultores daquela região e conta com uma importante vertente de digitalização tendo em vista a otimização operacional da infraestrutura.

Também no sul de França, em Gruissan, a Veolia coordena desde 2010 o projeto Irri-Alt'Eau, com bons resultados na reutilização de águas residuais na micro irrigação de vinhas.

Reutilização para consumo humano

Em Windhoek (Namíbia), região muito afetada por stress hídrico, a Veolia recicla as águas residuais para garantir a continuidade do abastecimento de água às populações. Esta unidade opera há mais de 20 anos e há muito que a população - experienciando diariamente a escassez deste recurso - aceitou esta forma de reutilização.

 


E a dessalinização?

Tradicionalmente associada a custos elevados, justificáveis para infraestrururas de grande dimensão e em contexto geográficos com escassez severa de água, a dessalinização também está em mudança. A Veolia, líder mundial em sistemas de conversão de água salgada em água doce, tem feito um forte investimento em I&D aplicados à dessalinização, tendo em vista novas tecnologias e soluções mais inteligentes. É o caso da solução Barrel - um sistema de plug and play, seguro, compacto e digital.